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José Maria Philomeno: Notre-Dame, uma tragédia imensurável

As terríveis cenas da última segunda-feira (15/04) à tarde, da Catedral parisiense de Notre-Dame ardendo em chamas chocaram todo o mundo. Assim como bilhões mundo a fora me comovi profundamente, tomado por um sentimento de lástima e revolta em vista à bárbara agressão desferida a um patrimônio da humanidade de imensurável e inestimável valor. Uma árdua dor pela certeza da aniquilação definitiva e irreparável de parcela considerável de nossa riqueza histórica e cultural.

O edifício, cuja pedra fundamental foi lançada ainda no período medieval, em 1163, é o monumento mais visitado do mundo, com mais de 13 milhões de pessoas por ano – quase o dobro das pessoas que visitam o Brasil.

Erguida em homenagem à Virgem Maria – daí o nome Notre-Dame (Nossa Senhora), a catedral da capital francesa é um ícone não só da religião católica, mas da história e das artes. Ao longo dos seus 9 séculos de existência, a Catedral de Notre-Dame viu passarem pelo trono francês três dezenas de reis, atraía cavaleiros medievais durante as Cruzadas a pedir proteção antes de partir para o Oriente, sobreviveu à Revolução Francesa, foi palco da coroação de Napoleão Bonaparte como imperador, da beatificação de Joana D’Arc, testemunhou a ascensão da República na França e resistiu a duas guerras mundiais.

Com capacidade para receber até 9 mil fiéis, suariqueza arquitetônica é esplendorosa. Com suas memoráveis gárgulas, arcadas, rosáceas, esculturas, torres, vitrais era considerada pelos especialistas o templo mais primoroso do estilo gótico europeu. Além, é claro, de seuriquíssimo acervo de relíquias e obras sacras de significativo valor, como fragmentos da coroa de espinho e da cruz de Jesus Cristo.

A mesma se eternizou também pela literatura através do romance histórico “O Corcunda de Notre-Dame”, do escritor francês Victor Hugo, publicado em 1831, que ajudou a popularizar a catedral no mundo todo com a história do tocador de sinos, o carismático corcunda Quasímodo.

Felizmente, apesar de boa parte do acervo restar irreversivelmente destruído, o monumento será, no que possível, restaurado e reconstruído conforme suas características originais. Aliás, tanto a catedral de Notre-Dame quanto a quase totalidade das edificações de valor histórico nos países europeus são regidas por severas regras de conservação, passando por constantes obras de manutenção. Esta consciência é fruto de uma cultura de estrema valorização do patrimônio histórico. Tanto que,espontaneamente, empresas já doaram mais de R$ 3 bilhões de reais para custear a reconstrução da catedral parisiense.

Consciência esta que falta a nós brasileiros. Passados sete meses do lastimável incêndio que vitimou o nosso valoroso Museu Nacional, na cidade do Rio de Janeiro, absolutamente nada foi feito em prol de sua reconstrução. Nossos governantes cruzaram os braços e nossa elite ignora sua responsabilidade.

José Maria Philomeno é economista, advogado e colunista do jornal O Estado

pab

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