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Arruda Bastos: Coelhinho da Páscoa, o que trazes pra mim?

Todos nós temos lembranças de momentos da nossa vida, mesmo que os fatos tenham acontecido na infância e já estejamos “dobrando o Cabo da Boa Esperança”. Para os que não conhecem a expressão popular, “dobrar o cabo da boa esperança” é atribuída às pessoas que viveram intensamente, vencendo as adversidades, e que chegaram a um estágio da vida com certa idade e muita experiência.


Essa expressão foi inspirada nas dificuldades que tiveram os portugueses em contornar o Cabo da Boa Esperança no extremo sul da África, na época dos descobrimentos, a procura de alcançar o tão sonhado caminho para as Índias. O esforço foi sobre-humano para a esquadra do navegante Bartolomeu Dias.

Embora ainda não me considere nesse estágio de vida, nessa manhã acordei lembrando-me de fatos longínquos da minha infância ligados à Páscoa. Recordo que, no jardim de infância que fiz no Colégio Juvenal de Carvalho das irmãs Salesianas aqui em Fortaleza, fui coelhinho da Páscoa por um dia.

Como instituição religiosa, o colégio tinha uma programação toda especial para a Semana Santa. Na época, idos da década de sessenta, as missas eram diárias e as professoras leigas e as irmãs competiam entre si para apresentarem para suas superiores a melhor participação dos seus alunos nas diversas atividades.

A minha professora era a irmã Paula e, com seu hábito impecável todo preto e, em outras vezes, não sei bem porque, de cor branca, impressionavatodos. Naquele tempo, o hábito era o tradicionalcom touca que emoldurava o rosto, uma longa veste, meias, sapatos fechados e um cinto de tecido segurando o rosário. Daí o ditado popular “mais escondido que orelha de freira”. 

Voltando à Páscoa, naquele ano, graças aos meus dotes artísticos, fui escolhido como personagem da peça infantil que foi encenada no auditório, para todo o colégio. Como coelhinho da Páscoa, tive que vestir a fantasia completa com orelhas, rabinho e tudo mais. Além da vestimenta, tinha que declamar Coelhinho da páscoa, o que trazes pra mim? / Um ovo, dois ovos, três ovos assim / Coelhinho da páscoa, que cor eles têm? / Azul, amarelo, vermelho também.

No final da minha performance, foi uma apoteosesendo, então, aplaudido de pé, episódio que, sem dúvida, marcou para sempre aqueles dias de inocente criança no Juvenal e foi o responsável pelo meu desembaraço em falar em público para grandes multidões, fato constatado nas inúmeras campanhas políticas que já participei.

Mas a história do coelho não termina por aí, pois alguns anos depois, em uma festa de carnaval, o coelhinho ressurgiu lépido e fagueiro em um baile do Clube General Sampaio da Avenida da Universidade. Acho que Isso aconteceu uns dois anos depois da minha estreia como ator. A fantasiacomo seria natural, quase não me cabia e teve o seu fechecler fechado a força.

A festa transcorria animadamente e meu saudoso tio Quelé, que nos levou ao baile, incentivou-me a cair na folia, mesmo com o desconforto da roupa. Resolvi, então, quando a animada banda iniciou a musica “A marcha da cueca”, cair na folia e ensaiar minhas primeiras voltas no salão.

Qual não foi minha surpresa quando me ocorreu que os foliões passaram a puxar partes da minha fantasia. Primeiro arrancaram o rabo, depois as orelhas, e assim as outras partes também. O certo é que depois de algumas voltas e antes dos acordes finais da marchinha com o tradicional “Eu mato, eu mato / Quem roubou minha cueca / Pra fazer pano de prato”, eu estava só de cueca.

Essa minha crônica de hoje representa muito bem as voltas que o mundo dá. Passei de ator de sucesso na Semana Santa encarnando o coelhinho da páscoa a uma pobre criança envergonhada no carnaval de dois anos depois. O importante é encarar e sempre que cair, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. E foi assim que eu fiz.

Para concluir, transcrevo duas mensagens de páscoa que li essa semana, a primeira que diz: “Uma prova de que Deus está conosco não é o fato de nunca cairmos, mas sim o fato de sempre levantarmos e a segunda, que nos faz pensar no espirito da Páscoa: “O maior poder de Jesus não é ressuscitar os mortos, e sim ressuscitar os vivos. Feliz Páscoa!

Arruda Bastos é médico, professor universitário, membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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