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José Maria Philomeno: Futebol e cerveja não combinam

Com a experiência de sete anos como membro na Justiça Desportiva, e atualmenteocupando a função de auditor do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) do futebol, tenho testemunhado um crescente número de processos envolvendo ocorrências de tumultos e atos de violência cada vez mais acentuadas e graves envolvendo torcedores nos estádios de futebol.

Ameaças, agressões verbais e físicas – com recorrentes casos de lesões corporais e até mesmo tentativas e homicídios consumados -, vandalismo, furto de objeto, dano patrimonial, são exemplos de crimes recorrentes tanto dentroquanto nos arredores dos estádios nos dias de jogos.  

Somos, talvez, o único país do mundo em que o planejamento para uma simples partida de futebol é encarada quase como uma guerra.

Proíbe-se a entrada nos estádios debandeiras e objetos ‘que possam ser usados como armas’; se separam os locais das torcidas com cordas divisórias para que não agridam os adversáriosquase como feras enjauladas, e chega-se a alocar um contingente de mais de quinhentos policiais militares para a segurança de uma partida – desfalcando boa parte da guarnição para o patrulhamento público.    

São diversas as causas deste quadro e não podemos dissociá-lo da realidade de uma violência endógena que tem assolado a sociedade brasileira como um todo.

O extremismo das torcidas organizadas, o sentimento de impunidade, a falta de civilidade, a agressividade por uso de bebidas alcoólicas e de drogas são germes que potencializam esta violência.

Atualmente há um debate acirrado sobre a liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios durante os jogos. Inclusive, nesta semana, deva ser votado pela Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, projeto de lei nesse sentido.

Me posiciono absolutamente contrário a essa liberação. Primeiramente em face da vedação constitucional, já que a liberação fere norma contida em lei federal, em especial o Estatuto do Torcedor, que assim dispõe em seu artigo 13: “não portar objetos, bebidas ou substâncias proibidas ou suscetíveis de gerar ou possibilitar a prática de atos de violência”.

Ademais, temos que considerar que os supostos ganhos comercias que a venda proporcionaria não podem, de forma alguma, suplantar todo o prejuízo de natureza social e da elevação da periculosidade envolvendo o futebol.

Aqueles que reclamam não poder tomar ‘uma cervejinha’ no estádio, tem que entender que a ‘cervejinha’, para muitos, não é nada inofensiva.  

É inconteste cientificamente que o álcool reduz os reflexos, afeta a consciência, o auto controle, alterando nossa capacidade de juízo crítico e de medir impulsos e ações.

O que, num “caldeirão” de extremo acirramento de rivalidades e emoções em que se transforma um estádio de futebol repleto de torcedores, pode fazer com que uma pessoa calma se transforme de maneira muito marcante, levando-a, inclusive, à agressividade.

Portanto, nossa realidade demonstra que para o bem do público que quer divertir-se de forma segura e civilizada nos estádios, e o futebol brasileiro está precisando da presença da torcida nos jogos, a chegada da cerveja não será nada saudável.

José Maria Philomeno é advogado e economista

pab

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