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Régis Barros: Fome, seria uma fantasia no Brasil?

Lembro-me da infância. Quando criança, viajávamos pela BR-116 para a cidade natal do meu pai. Percorríamos quase 200 km. Pelo sertão esturricado e seco, cortávamos a estrada cuja qualidade era muito ruim. Em trechos de maior concentração de buracos, várias famílias se amontoavam. Idosos, jovens, crianças e bebês nos braços das mães. Precisávamos contornar os buracos da estrada numa velocidade muito lenta. O ziguezague, em meio às crateras no asfalto, impedia que o carro ficasse danificado. Muitas vezes até precisávamos parar. Nessas horas, as famílias, que estavam na beira da estrada, estendiam as mãos. Mãos levantadas e olhares de derrotas que se perdiam até o horizonte. Aceitavam qualquer trocado ou qualquer alimento. Como, nessa época, não exisitia ar condicionado, os vidros ficavam abertos. Se nós dávamos alguma coisa (trocado ou comida), os outros corriam atrás e cercavam o carro. Essas cenas, até hoje, não saem da minha cabeça bem como uma fala de uma senhora que, com o seu bebê no braço, olhou para mim, uma criança, e gritou: “ajuda a gente e dá uma esmola pelo amor de Deus, nós estamos passando fome”.

De lá para cá, já se passaram vários anos. Alguns programas governamentais, sociais e de erradicação da fome, foram encaminhados. Nem de longe eles foram perfeitos, mas, sem dúvida alguma, foi alguma coisa e foi um diferencial para esse mundaréu de gente paupérrima que vivia na miséria. Independente dos erros e dos desvios desses programas, eles debutaram alguma ideia que nunca antes foi feita – combater a fome.

Hoje, percebo que muita coisa melhorou, mas ainda tem muito que melhorar. E a fome? Ela ainda existe? Infelizmente, ela existe sim. Nos confins e nos locais longínquos desse país, ela dá o ar da sua graça. Nas cidades e nas ruas dos centros urbanos, ela se diz presente. Há fome sim! Diferente do que o Sr. Excelentíssimo Presidente da República falou, há fome no território brasileiro. No entanto, ele não percebe isso. O presidente não conhece o Brasil que ele deveria governar. O primeiro passo para se combater um problema é aceitar que ele existe. Se o Presidente da República não percebe essa mazela, não haverá, portanto, combate a fome. Por sinal, até agora estou a esperar os seus programas governamentais para proteção dos mais desassistidos, sejam eles de esquerda ou de direita.

Que tempos duros e amargos são esses do presente…

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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