Home > Colunistas > José Maria Philomeno: O endividamento não é a solução

José Maria Philomeno: O endividamento não é a solução

Apesar de uma drástica redução da oferta de crédito pessoal, os índices de endividamento das famílias brasileiras voltou a crescer, alcançando o maior nível em 3 anos. Em junho, a taxa de endividamento em relação à renda acumulada em 12 meses subiu para 44,04%. É o maior nível desde abril de 2016, quando marcava 44,2%.

Segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgados neste mês de Julho, 64,3% das famílias consultadas tinham algum tipo de dívida, entre cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnês de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro, seguro ou da casa  própria.

Esta escalada no endividamento das famílias, que mais que dobrou nos últimos dez anos, tem como principal causa a política adotada a partir de 2004 de promoção do crescimento econômico ancorado no consumo interno. Assim se incentivou as pessoas a adquirirem bens, seja pela redução de IPI de automóveis e eletrodomésticos, redução dos juros bancários, prazos mais elásticos, e principalmente no aumento do crédito, que passou de 25% para 51% do PIB.

Logicamente que as políticas de incentivo surtiram efeito, mas momentaneamente. Esse tipo de modelo se esgota. Achar que as famílias vão seguir se endividando não é uma hipótese muito razoável. É necessário, portanto, incentivar investimentos que gerem resultados a médio e longo prazo, bem como adotar medidas que melhorem o ambiente de negócios, com mais inovações. Além da Reforma Previdenciária – que substancialmente contribuirá na busca do equilíbrio fiscal do Estado-, também a Reforma Tributária e investimentos em infraestrutura são urgentes.

A insistência na manutenção da sobrevalorizaçãodo Real,como forma de complementar a oferta e controlar a inflação, teve crucial efeito para a invasão de produtos chineses em nossas prateleiras, na maioria a preços menores que os fabricados aqui, o que contribuiu para um processo de enfraquecimento de nossa indústria, com perda de investimentos, escala e produtividade.

A questão central é que os governos confundemcrescimento com desenvolvimento. Os incentivos ao consumo contribuem para o crescimento e não para o desenvolvimento. O crescimento por consumo é uma característica dos países desenvolvidos, onde os investimentos em questões prioritárias como educação, saúde pública, e da infraestrutura já foram feitos. Nesses casos, o país só pode crescer se houver um forte incentivo ao consumo.

Prova disto é a constatação de que ao passo que cresce o endividamento das famílias a economia segue estagnada, com desemprego atingindo mais de 12 milhões no País, e de que caem mês a mês as projeções para crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano.

Se crescer antes de se desenvolver, o crescimento terá vida curta. É o que temos experimentado.

José Maria Philomeno é advogado e economista

pab

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *