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Crítica: Bacurau. Por Márcio Bastos

Ficção científica, faroeste e ação se misturam em Bacurau: produção nacional com vocação para entreter e provocar, onde é impossível ficar indiferente

BACURAU. Se come com que isso, hein?! Se você se perguntou que diacho de filme é esse tão comentando ultimamente – o que não faltam são memes na internet intensificando a campanha para assisti-lo –, fica a dica: estamos diante de um jovem clássico do cinema nacional. Um filme poderoso (vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes deste ano) com vocação para atingir a vários públicos, que vão desde despretensiosos espectadores que buscam um entretenimento escapista (sim, este é um filme brasileiro de gênero) aos que possuem um olhar mais aguçado capaz de fazer leituras que vão muito além da superfície.

Com cuidado para não entregar nenhum spoiler – ele é bem mais impactante se assistido sem que saibamos muitos detalhes –, Bacurau se passa em um futuro não muito distante (ficção científica?). Para contribuir com essa imersão que subverte a ordem e mais parece um convite a uma experiência diferente do que costumamos ver no cinema produzido no país, tudo começa com uma belíssima imagem do planeta Terra visto do espaço. Ao aproximar-se, a tal imagem nos leva a um inesperado lugar no Nordeste brasileiro: a cidade que dá nome ao filme. O convite está feito para uma história de luta e resistência no castigado sertão do país.

Corta para conhecermos os primeiros personagens. De carona em um caminhão-pipa que segue em direção à Bacurau, a personagem Teresa (Bárbara Colen) representa nossos olhos nesse primeiro ato. Voltando à terra natal para o enterro da avó, ela revê seu povo num início que ganha um caráter contemplativo. Logo compreendemos a importância desse pontapé inicial. A intenção é imergirmos no cotidiano daquele pedaço de chão, conhecermos um pouco de seu dia a dia, sua gente e seus costumes. Esse recurso, mesmo que a passos de tartaruga, é fundamental para que o espectador se identifique com o lugar, que se consolida nesse primeiro recorte como grande protagonista do longa.

Não é à toa que Bacurau é o principal personagem. A cidade simboliza a resistência de um povo que luta em meio a inúmeras adversidades, políticos corruptos e falta de apoio. Tanta problemática faz com que todos se unam, por entenderem que para sobreviver eles não podem se dar ao luxo de depender de mais ninguém. Esse sentimento de união e pertencimento faz de cada morador um defensor de suas memórias, muito bem guardadas no museu local.

O sentimento de irmandade é tão forte que mesmo um fora da lei pode ganhar status de herói. Esse é o caso de Lunga (Silvero Pereira), filho de Bacurau que escolheu enveredar pelo caminho do bandidismo, virando uma espécie de justiceiro do povo. É genial o exercício que os diretores Kleber Mendonça Filho (Aquarius) e Juliano Dornelles (O Ateliê da Rua do Brum) propõem aqui. Pela primeira vez no cinema, alguém tenta atualizar a figura de Lampião, fazendo do novo Rei do Cangaço um homem de traços afeminados, cabelos longos e unhas pintadas, numa caracterização perfeita que subverte nosso imaginário e confronta qualquer tipo de preconceito. Lunga é um matador frio e sanguinário que vive escondido nos arredores da cidade e estabelece seu próprio código de conduta, fazendo-se presente sempre carregado de um tom ameaçador.

Por falar em ameaça, é ela quem move o filme para o seu segundo ato. Diante de uma ameaça que vem de fora – mais uma vez, não vou revelar detalhes –, o povo da comunidade local entende que precisa se organizar. Fazer algo para combater esse mal iminente. Nesse momento, o filme, que já dialogava com o gênero de faroeste, começa a nos remeter a obras clássicas como Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa.

Para os espectadores citados no início do texto (os que vão além da superfície), Bacurau ganha contornos de filme engajado, apontando para a luta inglória de pessoas aparentemente mais frágeis contra “uma força maior”. E no contexto em que nosso país vive, não é nada difícil traçar um paralelo entre o governo atual e toda uma fatia da população que se opõe a ele.

A dupla Kleber e Juliano vai além nesse paralelo. Cutuca o fetiche por armas, o pouco caso que se dá à educação, o imperialismo americano e até mesmo o olhar de superioridade que pessoas de regiões mais desenvolvidas do país lançam sobre seus semelhantes de regiões do Norte e Nordeste (os paraíbas). Vale destacar a sensacional cena em que esses mesmos personagens com ar de superiores reúnem-se com estrangeiros que os olham de cima para baixo. Ou seja, somos todos seres humanos e é uma grande imbecilidade achar que uns são melhores que outros.

Chegando ao seu ato final, estamos completamente bacuralizados. Tudo é muito bem conduzido, com o elenco brasileiro (que inclui a atriz Sônia Braga) mostrando-se sempre de forma bastante convincente. O mesmo não pode ser dito dos atores estrangeiros do filme que, com exceção do alemão Udo Kier (Blade – O Caçador de Vampiros; Melancolia), soam um tanto caricatos. Confesso que fiquei na dúvida se essa foi uma decisão proposital dos diretores. Se foi, particularmente, teria optado por um caminho diferente, mas tal “descuido” não chega a prejudicar a experiência.

Por seu subtexto politizado, Bacurau é um filme que provoca extremos. Nascido em meio a era das polarizações, a produção é vocacionada a atrair, com a mesma intensidade, de apreciadores apaixonados a críticos fervorosos. Contudo, mesmo seus críticos mais exaltados não podem deixar de reconhecer a enorme qualidade cinematográfica dessa obra ímpar do cinema nacional.

Texto publicado originalmente no site www.cosmonerd.com.br.

Márcio Bastos
Redator publicitário, graduado em Letras e devorador de filmes e séries desde menino véi.

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