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Crítica: O Rei (Netflix). Por Márcio Bastos

Em performance inspirada, o ator Timothée Chalamet faz de O Rei um épico digno do gênero

Com a guerra dos streamings em pleno andamento, o reino da Netflix vive dias de ameaça. Sua coroa já não é mais uma certeza e, para se manter no trono, entrará ainda em muitas batalhas com concorrentes que ganham cada vez mais a admiração do povo. O Rei, do diretor David Michôd (Máquina de Combate), surge como uma grande resposta aos seus súditos. Um digno exemplar do gênero épico que entra para a linha de frente, colocando-se entre os melhores produtos originais que o pioneiro serviço de streaming já produziu.

Adaptado da peça Henrique V, de William Shakespeare, o novo épico da Netflix traz com ele algumas ambições. De olho nas premiações do próximo ano – a exemplo do vindouro O Irlandês, de Scorsese –, sua produção é grandiosa. Mas para contar a história do príncipe idealista que assume o trono inglês, tendo que lidar com a ameaça do reino da França, Michôd – que também assina o roteiro ao lado de Joel Edgerton – sabia da necessidade de ter que surpreender de alguma forma. Para isso, o diretor apostou alto em um nome: Timothée Chalamet.

Estrela em plena ascensão em Hollywood (com uma indicação ao Oscar por Me Chame pelo Seu Nome), Chalamet traz aqui sua performance mais inspirada. Assumindo o papel do personagem-título, o franzino ator revela uma presença impressionante. Seu Príncipe Hal, que inicia o filme vivendo entre os plebeus por não compartilhar com a visão belicista do pai, o Rei Henrique IV (Ben Mendelsohn, de Rogue One), precisa rapidamente entender como se comanda um país. No processo, o monarca encara de frente terríveis demônios, tendo que lidar com a constatação de que ser Rei, antes de mais nada, é uma posição ingrata e de extrema solidão.

Este acaba sendo o principal pilar do filme: o peso da coroa. Cercado por um conselho de homens cuja lealdade é questionada, Hal convoca seu amigo de confiança, o então cavaleiro aposentando John Falstaff (Edgerton), para ser seu marechal. E é o próprio Falstaff que abre os olhos do novo Rei, afirmando que, em meio a politicagens e conspirações, amizade é um luxo que ele não terá mais na vida.

Essa pesada carga que o monarca carrega é sentida durante toda a projeção. Para tentar se distanciar de outros épicos, Michôd se prende a isso, contando com o magnetismo de Chalamet, que consegue passar com brilhantismo o drama do príncipe vigente. Hal vai de jovem idealista, que ao assumir o trono parece estar sempre em busca de validação por suas decisões, a um homem cada vez mais endurecido por seu meio (mais próximo da figura de seu pai, a quem repudiava os atos).

Com um elenco de apoio que também não decepciona, é sentido o pouco tempo em cena de alguns personagens. O filme se dá ao luxo de ter, por exemplo, o sempre ótimo Sean Harris (Missão: Impossível – Efeito Fallout), aqui fazendo um dos conselheiros do Rei. Catarina (interpretada por Lily-Rose Deep) é outra que surge em um momento importante, mas merecia mais espaço no longa. Entretanto, nenhum desses é mais sentido por sua curta participação que Robert Pattinson (o futuro Batman dos cinemas). Como herdeiro do trono francês, o ator chama atenção, carecendo de mais cenas para desenvolver melhor seu personagem, que acaba mostrando apenas uma camada vilanesca.

Esteticamente impecável, o longa se distancia em parte de filmes como Coração Valente (mais intenso e repleto de batalhas) para se concentrar nas articulações e drama de Hal. Ainda assim, reserva-nos um clímax que não decepciona, trazendo de forma visceral a histórica Batalha de Agincourt (que certamente agradará os fãs de Game of Thrones, com algumas tomadas inspiradas na Batalha dos Bastardos).

Buscando uma linguagem menos teatral (ao contrário de adaptações shakespearianas como Henrique V, de Kenneth Branagh), O Rei é um filme que possui ingredientes necessários para agradar os amantes do gênero. Seu maior pecado talvez esteja em não saciar completamente a sede desses apreciadores. Por seu mau aproveitamento de personagens importantes, que trariam um contraponto interessante ao protagonista se fossem melhor explorados, fica aquela sensação (mesmo com 2h20 de duração) de um ineficiente desenvolvimento do roteiro. Alguma contextualização maior sobre o cenário de Inglaterra e França também não faria nada mal à trama. Em seu desejo de simplificar, Michôd dá algumas derrapadas. Por sorte, temos um inspirado Chalamet para mediar as coisas.

Texto publicado originalmente no site www.cosmonerd.com.br.

Márcio Bastos
Redator publicitário, graduado em Letras e devorador de filmes e séries desde menino véi.

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